Textos na área temática: Emprego

O trabalho assalariado e o emprego doméstico entre as mulheres negras: uma avaliação do período 2005-16

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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De acordo com os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), nos últimos dois anos, os principais indicadores do mercado de trabalho apresentaram desempenho negativo. A taxa de desemprego aumentou 81,4% entre 2014 e 2016, e o salário médio real atingiu, em 2016, o menor patamar da série histórica desde 1993. Nesse último biênio, também se observaram alterações na distribuição dos ocupados segundo as posições na ocupação, o que indica, adicionalmente, uma ameaça de deterioração na qualidade da ocupação. O termo “posição na ocupação” é utilizado pela PED para classificar os ocupados de acordo com a forma da relação de trabalho estabelecida entre o trabalhador e o empregador e/ou entre o trabalhador e o público alvo. Neste texto, analisam-se as alterações na distribuição da ocupação, no período de 2005 a 2016, com foco nas mulheres negras e na sua inserção no trabalho assalariado, sobretudo no setor privado com carteira assinada e no emprego doméstico. De forma sucinta, pode-se definir emprego doméstico como a categoria que enquadra diaristas sem carteira de trabalho assinada, mensalistas com carteira de trabalho assinada e mensalistas sem carteira de trabalho assinada.

No que diz respeito à distribuição por posição na ocupação, verifica-se que, entre os anos de 2005 e 2015, ocorreu um crescimento quase constante dos ocupados assalariados com carteira assinada no setor privado (17,8%), intercalado com anos de relativa estabilidade. De forma concomitante, deu-se uma redução na concentração de ocupados sem carteira assinada. Em 2016, tal processo inverteu-se. Já o emprego doméstico e o trabalho autônomo apresentaram reduções entre 2005 e 2014, voltando a crescer em 2015. Esse movimento de redução de ocupados em formas de trabalho mais precárias (trabalhos autônomo, sem carteira e doméstico) e crescimento do trabalho assalariado com carteira assinada no setor privado, verificado conjuntamente até 2014, é aqui encarado enquanto um processo estrutural de transformação da ocupação no mercado de trabalho da RMPA. Além do desempenho da economia, contribuíram, para essa mudança, a redução da taxa de participação da População em Idade Ativa (PIA) no mercado de trabalho, que resultou em um menor crescimento da força de trabalho, e o crescimento da escolaridade dos ocupados. Ao analisar os dados por raça/cor e sexo, destacam-se a tendência geral de crescimento da ocupação com carteira assinada e a redução do emprego sem carteira, exceto para as mulheres negras, que apresentaram redução em sua participação no emprego doméstico.

O emprego doméstico na RMPA é majoritariamente feminino: 97,3% dos empregados domésticos eram mulheres em 2016, dessas mulheres, 20,9% eram negras e 79,1% eram não negras. Ambos os segmentos se revelam super-representados, uma vez que as mulheres negras e não negras constituíam, respectivamente, 5,9% e 40,6% da População Economicamente Ativa (PEA) no mesmo ano. Contudo o emprego doméstico agrupou 20,5% do total de mulheres negras ocupadas (segunda posição na ocupação mais comum entre essas mulheres) e 10,4% das mulheres não negras ocupadas (empatado em terceiro lugar com autônomos e demais posições), ou seja, embora o número absoluto de mulheres não negras (aproximadamente 68 mil) no emprego doméstico seja superior ao de mulheres negras (aproximadamente 18 mil), essas não representam uma posição tão importante para o total da ocupação das mulheres não negras. O mesmo não pode ser dito sobre as mulheres negras.

A partir de 2005, observou-se, entre as mulheres negras ocupadas, um movimento relevante de aumento da participação do trabalho assalariado com carteira assinada no setor privado, com crescimento médio de 4,7% ao ano até 2015. Em contrapartida, a participação do emprego doméstico decresceu em média 5,1% ao ano. Durante esse período, as duas posições na ocupação apresentaram tendências opostas, como pode ser observado no gráfico. De acordo com os dados da PED-RMPA, a participação do emprego doméstico e do trabalho assalariado no setor privado com carteira parece possuir uma relação inversa à inserção das mulheres negras no mercado de trabalho. Também contribuíram para as mudanças dessa inserção a elevação da escolaridade e a estabilidade — com tendência negativa — da taxa de participação das mulheres negras em idade ativa no mercado de trabalho, que apresentou redução de 0,8% ao ano, em média, entre 2005 e 2015. Se, por um lado, não é possível afirmar que são as mesmas pessoas que saíram do emprego doméstico e entraram no trabalho assalariado privado com carteira, por outro, é inegável que ocorreu uma modificação na estrutura ocupacional das mulheres negras. Resta saber se o comportamento do último biênio, em virtude do desempenho econômico negativo, representa apenas uma interrupção do processo de formalização e melhor inserção das mulheres negras no mercado de trabalho ou o início de um processo de reversão dos avanços na estrutura da ocupação para essas mulheres.

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Mercado formal de trabalho do RS estagna após forte retração

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Os primeiros sete meses deste ano tiveram um saldo de apenas 262 empregos adicionais no mercado de trabalho formal do Rio Grande do Sul, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Essa virtual estagnação representa o prolongamento — vale dizer, a incapacidade de reação — frente à severa crise econômica, cujos efeitos eclodiram, na esfera ocupacional, no ano de 2015. Nesse ano, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), também do Ministério do Trabalho, 103,3 mil postos de trabalho com registro formal foram eliminados no Estado — redução de 3,3%, que interrompeu uma trajetória de mais de 10 anos de crescimento. Entre o final de 2004 e o de 2014, o estoque de empregos formais no mercado gaúcho havia-se elevado 41,8%, com uma expansão de 916 mil postos de trabalho.

Dados da RAIS para 2016 ainda não estão disponíveis. O Caged — que guarda algumas diferenças metodológicas e não alcança a mesma cobertura, mas cujo valor como base de dados para o estudo da conjuntura do mercado formal de trabalho é consagrado — aponta que outros 53,6 mil empregos com registro formal desapareceram, no Estado, em 2016 (o que representaria cerca de 2,1% de retração, em um cálculo aproximativo que parte da RAIS do ano anterior, com algumas compatibilizações ao Caged).

É com esse pano de fundo que se aquilata o desempenho do emprego nesses primeiros sete meses de 2017: de um lado, há a frustração por ainda não haver qualquer sinal de recuperação das intensas perdas recentes; de outro, esse resultado, que beira o zero, mas se situa no lado positivo, contrasta com as retrações acumuladas, entre janeiro e julho, nos últimos dois anos: -24,4 mil em 2016 e -29,2 mil em 2015. Nos cinco anos anteriores, para que fique bem circunscrita a reversão da tendência, os saldos haviam sido largamente positivos — sempre nesse recorte dos primeiros sete meses do ano —, vindo desde os 129,2 mil de 2010 até os mais modestos 45,6 mil de 2014.

Como em qualquer totalização de frações do ciclo anual, há que se ter cuidado com os efeitos da sazonalidade, que incide de forma particular em cada atividade econômica e em cada porção do território, desaconselhando a que se tomem os resultados obtidos como tendências seguras para o médio prazo (ou para o fechamento do período). Feita essa advertência, examinam-se algumas evidências que surgem da análise do Caged para esses sete primeiros meses deste ano, no Estado. Ainda que o resultado agregado tenha sido inexpressivo, setorialmente, merece destaque a indústria de transformação (IT), que teve um saldo de 11 mil empregos adicionais no período. Nos dois anos anteriores, ela havia sido responsável por mais da metade dos saldos negativos. Essa expansão da IT em 2017 foi neutralizada por retrações em praticamente todos os outros setores, destacando-se o comércio (-6,9 mil postos) e a agropecuária (-2 mil) no período.

Dentro da IT, as atividades (Divisões CNAE) que apresentaram maior geração de ocupações formais foram a fabricação de produtos do fumo (8,4 mil) e a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (2,7 mil). A primeira dessas atividades exemplifica bem a referida problemática da sazonalidade: a produção de fumo e seus derivados, no Estado, concentra-se no segundo trimestre. Ainda com variações positivas significativas, podem-se citar fabricação de produtos de borracha e de material plástico e fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (cerca de 1,2 mil cada). Embora os serviços tenham tido resultado agregado negativo (-953 empregos), duas Divisões CNAE que integram o setor apresentaram expansão digna de nota: educação (1,7 mil) e atividades de atenção à saúde humana (1,6 mil).

A análise do número de vínculos por faixa de remuneração também chama atenção, embora se trate de um dado incompleto (nessa variável específica, diferentemente das demais, não havia, na base do Ministério, a totalização das movimentações de mão de obra informadas fora do prazo pelos estabelecimentos). A fonte indica que houve expansão relevante do número de vínculos de trabalho com remunerações na faixa de 1,01 a 1,5 salário mínimo (SM); em menor intensidade, mas também com aumento, na faixa de 0,5 a 1 SM; e ainda um pequeno aumento no contingente com rendimento até 0,5 SM. O pessoal formalmente empregado em todas as demais faixas de salário retraiu-se. Um cruzamento com a escolaridade dos trabalhadores aponta que essa tendência de retração nos estratos de remuneração mais elevada e de expansão nos de mais baixo rendimento é reconhecível independentemente do nível de instrução do indivíduo — embora a distribuição por faixa, evidentemente, se altere, à medida que avança o número de anos de estudo concluídos. Esses dados merecem maior aprofundamento analítico, mas indicam que, além do escasso fôlego para gerar saldos ocupacionais positivos, o mercado de trabalho está passando por uma forte pressão de compressão salarial, o que amplifica os efeitos adversos da recessão.

O que está claro é que o mercado formal de trabalho vive, no Estado, assim como no País, um momento de muito baixo dinamismo, na sequência de uma continuada e profunda retração do emprego, a qual, no entanto, dá sinais de ter arrefecido. Se a economia e a ocupação se preparam para iniciar proximamente um esforço de retomada; se vão permanecer por mais algum tempo derreadas e estáveis, na precária posição em que se encontram; ou se, desafortunadamente, mais perdas podem sobrevir, ainda não é seguro afirmar.

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Evolução recente da desocupação e estagnação salarial no RS e no Brasil

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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3O Rio Grande do Sul não ficou imune ao processo recessivo vivenciado pela economia brasileira a partir de meados de 2014. Os dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mediante a Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios Contínua trimestral, permitem situar a trajetória do mercado de trabalho do Estado em relação ao que é observado na economia brasileira nos últimos anos.

Nesta análise, destacam-se três grupos de ocupação: os empregadores, os empregados com carteira de trabalho assinada e os sem carteira assinada. Os trabalhadores domésticos não estão incluídos nesta discussão. De modo geral, esses grupos podem ser divididos em dois conjuntos, de acordo com os papéis funcionais desempenhados na economia. O primeiro conjunto, o dos empregadores, efetua a alocação dos diversos recursos produtivos (trabalho e capital) na produção, ao decidir o montante de investimentos, o nível de utilização da capacidade instalada (dadas as condições da demanda por bens e serviços) e, por extensão, a quantidade de trabalhadores a serem empregados. O segundo conjunto é composto pelos empregados, os responsáveis pelo fornecimento de trabalho aos processos produtivos, sejam eles com ou sem carteira assinada. O comportamento das remunerações desses dois conjuntos de trabalhadores apresentam dinâmicas distintas.

O Gráfico 1 apresenta a remuneração mensal habitual do trabalho principal dos empregadores do Brasil e do Rio Grande do Sul, em valores reais, entre o primeiro trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2017. Os empregadores apresentam maior rendimento mensal habitual quando comparado aos demais grupos de ocupação, tanto para o Brasil como para o RS. Observa-se, para o Brasil, que a queda dos rendimentos reais dos empregadores inicia-se no terceiro trimestre de 2013, no início suave, mas acelerando-se posteriormente. Os indícios demonstram que, a partir do terceiro trimestre de 2016, os rendimentos dos empregadores entraram em uma trajetória de recuperação.

Para o RS, constata-se que a redução dos rendimentos dos empregadores foi mais acentuada ao longo do período. Em linhas gerais, constata-se que, para o Brasil, não há correspondência direta entre a recessão de 2014 e a queda dos rendimentos dos empregadores. Esses rendimentos começaram a cair antes da crise. Cabe assinalar que, no caso do RS, os rendimentos dos empregadores aparentaram maior sensibilidade aos efeitos da contração da economia brasileira. Por um lado existe a possibilidade de que esse comportamento derive de efeito estatístico oriundo do menor tamanho da amostra para o Estado. Entretanto, a comparação entre a taxa de variação anual do segundo trimestre de 2016 em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, que é estatisticamente significativa tanto para a amostra estadual como para a nacional, indica queda mais acentuada dos rendimentos dos empregadores do RS. O comportamento peculiar dos rendimentos dos empregadores gaúchos pode estar associado à existência de atividades empresariais de menor escala, especialmente as ligadas à pequena propriedade rural.

Para os empregados com e sem carteira de trabalho assinada, a primeira constatação é o crescimento da taxa de desocupação. Tanto para o Brasil como para o RS, esse processo se iniciou a partir do último trimestre de 2014. Até o primeiro trimestre de 2017, os níveis de desocupação continuaram crescendo, como pode ser visto no Gráfico 2. Para o RS, as indicações são de que o nível de desocupação se estabilizou em um patamar entre 8% e 9% a partir do segundo trimestre de 2016, o que equivale a quase o dobro da taxa de desocupação observada no segundo trimestre de 2014.

O aumento da desocupação articula-se com quedas moderadas e posterior estagnação dos salários reais médios no RS (Gráfico 3). Para o Brasil, observa-se uma tendência de estagnação dos salários reais dos empregados. No caso do RS, o tamanho da amostra não permite discernir se a volatilidade observada nos salários é decorrente de efeitos estatísticos ou de maior sensibilidade às condições recessivas do mercado de trabalho.

Em uma visão geral, constata-se a relativa estabilização dos salários reais e o arrefecimento, no caso gaúcho, do crescimento dos níveis de desocupação. Ao se observar o mercado de trabalho em uma perspectiva um pouco mais ampla no tempo, constata-se que inexiste tendência de recuperação do emprego para os níveis anteriores à crise. Até o momento, o único indício de recuperação de rendimentos situa-se na remuneração dos empregadores do RS. Ocorre crescimento estatisticamente significativo da ordem de 13,3% dessa categoria de rendimentos no último trimestre de 2016 em relação ao trimestre anterior. As limitações estatísticas dos dados não permitem comparações quantitativas com trimestres dos anos anteriores, o que não permite isolar efeitos sazonais. Para o Brasil, inexistem evidências estatisticamente significativas de recuperação dos rendimentos, mesmo para o caso dos empregadores. O retorno a um processo socioeconômico inclusivo, como o observado ao longo da primeira década do século XX, não é visível no futuro próximo.

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Decomposição da mudança da taxa de desocupação no RS

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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Após 11 resultados negativos consecutivos da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o primeiro trimestre de 2017 foi o primeiro a não apresentar queda, amargurando, contudo, um crescimento nulo. Nesse contexto, a taxa de desocupação do Rio Grande do Sul saltou de 5,4%  no primeiro trimestre de 2014 para 9,1% no mesmo trimestre de 2017, de
acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Flutuações na taxa de desocupação podem ser causadas por mudanças na probabilidade de um ocupado perder a ocupação, de um desocupado encontrar uma ocupação ou de indivíduos saírem e entrarem na força de trabalho — a População Econômica Ativa (PEA). Hall (2005) e Shimer (2007) apresentam uma metodologia que permite utilizar dados longitudinais do mercado de trabalho para decompor variações na taxa de desocupação em dois grupos: inflows (ins) e outflows (outs). Ins representam a probabilidade de um indivíduo ocupado transitar da ocupação para a desocupação, enquanto os outs representam a probabilidade de um indivíduo desocupado flutuar da desocupação para a ocupação. A partir dessas probabilidades, os autores conseguem estimar taxas de desocupação contrafactuais, que simulam como seria a taxa de desocupação se um dos componentes se tivesse mantido constante e o outro tivesse variado. Com essas taxas de desocupação contrafactuais, é possível determinar quais dos componentes foi o mais relevante para a variação da desocupação verificada de fato.

Com o intuito de replicar o exercício para o Rio Grande do Sul, considera-se um modelo onde o indivíduo pode assumir três estados: ocupado, desocupado e fora da PEA. Nesse arcabouço, existem seis probabilidades de transição: (a) da desocupação para a ocupação; (b) da desocupação para fora da PEA; (c) da ocupação para a desocupação; (d) da ocupação para fora da
PEA; (e) de fora da PEA para a desocupação; e (f) de fora da PEA para a ocupação. Os dados utilizados foram obtidos a partir da PNAD contínua de 2012 até o último trimestre de 2016. A PNAD contínua, por se tratar de um painel rotativo, permite observar os domicílios por até cinco trimestres consecutivos.  Os indivíduos dentro dos domicílios foram identificados nos trimestres,
pela variável sexo e idade. A amostra considerada engloba a população de 15 a 70 anos de idade no RS, dividida em três subamostras: mulheres, homens e população total.

Uma vez estimadas as seis taxas de desocupação contrafactuais, estima-se quanto de sua variação está correlacionada com a taxa de desocupação real. Isso é feito dividindo-se a covariância de cada taxa contrafactual e a taxa de desocupação real pela variância da taxa contrafactual. Tal medida informa quais taxas contrafactuais apresentam um caráter cíclico e quais têm características acíclicas. Os coeficientes são apresentados na tabela abaixo, em valor absoluto e termos percentuais.

De acordo com a decomposição, o principal fator que explica o aumento da taxa de desocupação no Rio Grande do Sul entre o primeiro trimestre de 2012 e o mesmo período de 2017 é a taxa de separação (rompimento dos contratos de trabalho), responsável por 36,6% do avanço total. Isso porque a chance de um indivíduo perder ocupação no trimestre seguinte e virar desocupado avançou de 0,7% para 1,20% no período considerado.

O segundo componente mais representativo na explicação do movimento da taxa de desocupação foi a transição “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,4%. A probabilidade de essa transição ocorrer de um trimestre para o outro era  relativamente estável até o último trimestre de 2014. A partir de então, a probabilidade passou de 1,4% no último trimestre de 2014 para 2,6% no segundo trimestre de 2016.
Intuitivamente, parece natural que a taxa de separação fosse a maior responsável pelo aumento da desocupação. Durante uma recessão, é esperado que as demissões aumentem. Surpreendente é que, em segundo lugar, esteja o componente associado à entrada das pessoas não economicamente ativas para a situação de desocupação.

Parte do fenômeno pode ser explicado, na medida em que, por exemplo, chefes de família perdem a ocupação, e outros membros que estavam fora da força de trabalho precisam, agora, ofertar sua mão de obra no mercado. De fato, a explicação parece plausível quando se observam as contribuições de cada componente para homens e para mulheres. O fator que mais contribuiu para a flutuação da desocupação dos homens foi a taxa de separação. O mesmo, no entanto, não pode ser dito para as mulheres. Para elas, o maior fator na variação da desocupação é a dinâmica “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,6%. Tal diferença é um indício de que a crise pode ter mudado a alocação intrafamiliar da força de trabalho. No entanto, trata-se apenas de um indício, uma vez que as causas para tal fenômeno continuam elusivas e, por isso, exigem uma  investigação mais profunda.

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Crise econômica e desigualdade salarial na Região Metropolitana de Porto Alegre

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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Durante a crise econômica, ocorreu acentuada deterioração do mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA). De acordo com os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA), a taxa de desemprego total elevou-se de 5,9% em 2014 para 8,7% em 2015 e para 10,7% em 2016. Na comparação de 2014 com 2016, o contingente de desempregados na Região teve um acréscimo de 89 mil pessoas, passando de 113 mil para 202 mil desempregados.

Quanto aos rendimentos do trabalho, os salários reais tiveram um comportamento bastante adverso na conjuntura de crise econômica. O salário médio real, que havia tido uma leve variação negativa em 2014, evidenciou uma queda abrupta de 8,2% em 2015 e de 7,3% em 2016, situando-se no menor patamar da série histórica da Pesquisa, cuja primeira média anual é a de 1993. A questão que este texto propõe é se essa enorme redução do salário médio real implicou, também, em aumento da desigualdade da estrutura salarial na RMPA. Para procurar respondê-la, serão apresentadas, a seguir, evidências sobre esse tema.

De acordo com o que se pode constatar no Gráfico 1, o Coeficiente de Gini dos salários-hora reais na RMPA mostra uma inequívoca tendência de queda durante a crise econômica, tendo passado de 0,3847 em 2014 para 0,3730 em 2015 e para 0,3418 em 2016. Portanto, a questão acima proposta tem uma clara resposta: a conjuntura de crise econômica não trouxe consigo elevação da desigualdade dos rendimentos do trabalho assalariado; pelo contrário, ela provocou uma considerável redução da desigualdade salarial.

Caberia, brevemente, investigar o que houve com a estrutura salarial da RMPA na crise econômica para procurar encontrar as causas da queda na sua desigualdade. Tendo como referência esse propósito, a estrutura salarial da Região foi seccionada em pontos com igual espaçamento, de 5,0%, os quais serão denominados de vintis. Ao se observar o comportamento dos vintis dos salários-hora reais, será possível conhecer a evolução das diferentes partes da estrutura salarial na crise econômica.

A esse respeito, ao se compararem as taxas de variação dos vintis dos salários-hora reais da base e do topo da estrutura salarial da RMPA, constata-se que aqueles lo-calizados no topo tiveram uma redução extremamente acentuada, diferentemente do que ocorreu com aqueles localizados na base (Gráfico 2). Nesse sentido, por exemplo, en-quanto o 19.° vintil dos salários-hora reais teve uma queda de 26,3% na comparação de 2016 com 2014, o 1.° vintil dos salários-hora reais registrou uma redução de somente 2,8% nessa mesma referência comparativa. Pode-se perceber que esses comportamentos se configuraram em um padrão — ainda que com magnitudes distintas — para os vintis localizados no topo e na base da estrutura salarial da RMPA durante a crise econômica.

Como decorrência desses comportamentos, houve uma redução da desigualdade da estrutura salarial da RMPA — ou seja, da sua dispersão — durante a crise econômica. Isso pode ser confirmado pela evolução de uma medida de dispersão salarial — a razão 19.°/1.° vintil dos salários-hora reais —, que apresentou uma queda de 6,92 em 2014 para 6,43 em 2015 e, posteriormente, para 5,25 em 2016.

Por fim, é importante assinalar que a pequena redução do 1.° vintil dos salários-hora reais na RMPA, durante a crise econômica, deve-se, possivelmente, ao fato de des-se vintil estar em torno do salário-hora mínimo real. Ou seja, é provável que a existência dessa forma de regulação institucional dos salários, no País, tenha limitado perdas de maior magnitude na base da estrutura salarial, na conjuntura da crise econômica, em 2015 e 2016.

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Trabalho autônomo: alternativa consistente para superar o desemprego?

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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O aumento do desemprego e as suas consequências sociais são considerados uma das faces mais perversas da recessão econômica. A taxa de desemprego elevou-se em 81,4% na Região Metropolitana de Porto Alegre entre 2014 e 2016, passando de 5,9% em 2014 para 10,7% em 2016. Diante da dificuldade da economia brasileira em retomar a trajetória de crescimento e a geração de empregos, o trabalho autônomo, como forma de empreendedorismo, tem sido amplamente incentivado como saída para o desemprego.

De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA), a estrutura ocupacional da Região, em 2014, era: 71,0% de assalariados, 14,1% de trabalhadores autônomos e 14,9% de outras ocupações. Em 2015, a proporção de trabalhadores autônomos diminuiu para 13,1% de ocupados e, em 2016, aumentou para 13,7%. O número de trabalhadores nessa ocupação reduziu-se em 22 mil em 2015, correspondendo a 70,1% da queda na ocupação da RMPA nesse ano. Em 2016, o contingente de autônomos ficou estável, e o nível ocupacional da RMPA diminuiu em 83 mil pessoas (todos assalariados). Uma análise detalhada dessa forma de inserção ocupacional revela uma mudança de tendência no segundo semestre de 2016, que não é percebida quando se observam os dados agregados para o ano. Em 2015 e no primeiro semestre de 2016, a tendência é de redução no número de trabalhadores autônomos, enquanto, no segundo semestre de 2016, a tendência passa a ser de crescimento, com aumento de 30 mil pessoas nessa ocupação, uma elevação de 13,6% em relação ao segundo semestre de 2015 (gráfico).

O profissional autônomo trabalha sozinho, e a sua atividade não depende de um diploma universitário, diferentemente dos profissionais liberais, cuja atividade depende de uma formação acadêmica. O trabalho autônomo pode ser dividido em duas categorias: a dos que trabalham para o público em geral e a dos que trabalham para empresas. Entre o segundo semestre de 2014 e o primeiro semestre de 2016, os autônomos que trabalham para empresas apresentaram reduções mais acentuadas (-25,4%) do que os que trabalham para o público (-14,3%). Já no segundo semestre de 2016 (em relação ao primeiro semestre desse ano), aqueles que atendem o público cresceram mais (17,3%) do que aqueles que prestam serviços para empresas (13,2%). A composição dessa ocupação, no segundo semestre de 2016, era de 76,1% de trabalhadores para o público, o que correspondia a 190 mil ocupados, e de 23,9% de trabalhadores para empresas (60 mil ocupados). Destaca-se que entre os autônomos que trabalham para empresas, 65,0% (39 mil pessoas) prestavam serviços para até uma empresa. Na literatura, esse fenômeno é chamado de “pejotização” e caracteriza a terceirização, pois apresenta características de trabalho assalariado sem incidir nos custos trabalhistas.

A análise do perfil dos trabalhadores autônomos para o ano de 2016 revela que a maioria é homem (66,5%), tem 40 anos e mais (63,3%), possui baixa escolaridade (53,3% têm até o ensino fundamental) e não contribui para a Previdência Social (59,0%). Características estas distintas da média do total de ocupados na RMPA: 53,8% de homens, 47,5% têm 40 anos e mais, 37,4% têm até o ensino fundamental, e 16,9% não contribuem para a Previdência. Relacionando o perfil com o tipo de atividade, percebe-se que os autônomos que trabalham para empresas são um pouco mais jovens e escolarizados quando comparados com os autônomos que trabalham para o público em geral.

Em relação à renda, os trabalhadores autônomos possuem um rendimento médio real inferior ao dos assalariados. Além disso, a queda nos rendimentos dos autônomos foi mais intensa do que a redução dos salários nesses últimos dois anos de crise. Entre 2014 e 2016, a redução do rendimento médio real foi de 20,5% para os autônomos e 14,9% para os assalariados. Em 2014, um trabalhador autônomo recebia em média 4,8% menos do que um assalariado, diferença que aumentou para 11,1% em 2016. Destaca-se que a queda na renda dos autônomos foi 14,3% no segundo semestre de 2016 em relação ao segundo semestre de 2015, justamente no período em que se observou crescimento do seu contingente (13,6%). Analisando-se por categoria, os autônomos que atendem ao público auferem, em média, 26,8% menos do que aqueles que trabalham para empresas.

Em síntese, a inserção ocupacional do trabalhador autônomo dá-se em uma condição de maior precariedade comparativamente ao assalariado. Diante disso, uma alternativa que considere a superação do desemprego através do trabalho autônomo estará ampliando a precarização do mercado de trabalho. Mesmo que alguns desses trabalhadores prosperem, é irrealismo considerar que esse tipo de inserção ocupacional seja uma alternativa consistente na atual conjuntura de crise. Nesse sentido, ter a expectativa de que os 203 mil desempregados da RMPA (abril/2017) possam ser responsáveis pela sua própria geração de renda, ainda mais em um contexto de recessão econômica, retrata a incapacidade dos formuladores de políticas públicas (em âmbito econômico e social) em promover o crescimento econômico e a geração de empregos.

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Emprego na produção de equipamentos de saúde aumenta no RS

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Edição: Ano 26 nº 3 – 2017

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A produção de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos (EMHO) abarca duas classes de atividades da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0), a saber: fabricação de aparelhos eletromédicos e eletroterapêuticos e de equipamentos de irradiação (aqui denominada “aparelhos eletromédicos”) e fabricação de instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos (“instrumentos médicos”). De forma geral, são bens utilizados em práticas médicas e odontológicas relacionadas à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento de doenças, sendo que o primeiro grupo de produtos apresenta maior sofisticação tecnológica que o segundo.

A fabricação de EMHO — também caracterizada como indústria de base mecânica, eletrônica e de materiais — constitui-se num dos três segmentos que integram o chamado Complexo Industrial da Saúde. Este é formado, ainda, pela indústria de base química e biotecnológica (medicamentos, fármacos, vacinas, soros, hemoderivados, toxinas e reagentes para diagnóstico) e pelos serviços de saúde (hospitais, ambulatórios, serviços de diagnóstico).

Embora a produção de EMHO não tenha uma forte representatividade quantitativa no conjunto da indústria gaúcha — 0,48% do emprego, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS, 2015), — ela tem importância no contexto local de algumas regiões, onde pode desempenhar um papel indutor do crescimento econômico.

A partir da tabela, pode-se notar a concentração de empregos em seis municípios, os quais detêm praticamente 80% dos postos de trabalho na produção de EMHO no Estado. Desses seis municípios, três localizam-se na Região Metropolitana de Porto Alegre: Cachoeirinha, Canoas e Porto Alegre. Há ainda: Pelotas, no Corede Sul; Barão, no Corede Vale do Caí; e Caxias do Sul, no Corede Serra. Pode-se dizer, com isso, que a maioria das empresas produtoras de EMHO está situada no eixo industrial Caxias-Porto Alegre, onde pode beneficiar-se de vantagens de aglomeração. Mesmo o Município de Barão, que conta com uma importante empresa do setor, localiza-se nas cercanias do referido eixo industrial.

Situação bem diferente é a do Município de Pelotas, que não faz parte da região mais industrializada do Estado, mas abriga uma importante concentração de atividades referentes à saúde. Os dados da tabela apontam o elevado contingente de empregados na produção de EMHO, o que coloca esse município em segundo lugar no Estado.

A propósito disso, é necessário evocar uma particularidade de Pelotas, apontada em pesquisa cuja síntese encontra-se no livro eletrônico Aglomerações e Arranjos Produtivos Locais no Rio Grande do Sul, que analisou a produção de EMHO nesse município, dentre 10 outras aglomerações industriais gaúchas. Na referida pesquisa, foi constatada a existência de uma empresa produtora de cadeiras de rodas que não está classificada em nenhuma das duas classes de atividade consideradas habitualmente como fabricantes de equipamentos de saúde, mas, sim, na fabricação de bicicletas e triciclos não motorizados, onde se incluem cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, dentre outros. Daí resulta coerente que, em Pelotas, seja levado em consideração esse fato, tendo em vista a importância desse segmento para a correta avaliação do setor. Assim, se os empregos dessa terceira classe forem incorporados, pode-se considerar que existiam, em 2015, em Pelotas, 681 empregos em EMHO (em lugar dos 532 que a tabela aponta), o que significa 21% do total do Estado. A importância dessa atividade para o município e sua região fez com que merecesse um estudo aprofundado (acima referido), elaborado pelo Núcleo de Análise Setorial do Centro de Estudos Econômicos e Sociais da Fundação de Economia e Estatística (NAS-CEES-FEE), em que foram estudadas as potencialidades dessa atividade para o desenvolvimento da região.

No contexto global do Estado, a tabela permite constatar, ademais, uma expansão do emprego na produção de EMHO entre 2010 e 2015, quando passou de 2.538 para 3.241 postos de trabalho, ou seja, cresceu 27,7%. Esse dinamismo é tanto mais significativo quando comparado com o desempenho da indústria de transformação em seu conjunto, que, no mesmo período, apresentou uma queda de, aproximadamente, 6% nos postos de trabalho.

O crescimento da produção de EMHO no RS foi puxado pela classe 32.507, que abrange a fabricação de instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos, que expandiu o emprego em 29%, além de ser a classe que mais emprega em números absolutos.

Convém notar, ainda, que o Município de Porto Alegre foi o que ampliou mais intensamente o emprego em EMHO, atingindo um crescimento de 67,7% no período analisado.

A indústria de equipamentos e de materiais ligados à saúde — da mesma forma que o segmento de base química e biotecnológica, bem como os serviços de saúde de maneira geral — tem perspectivas muito positivas em face das alterações no perfil etário da população brasileira. A expectativa de vida ao nascer, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vem crescendo bastante nas últimas décadas, tendo passado de 62,5 anos em 1980 para 75,5 anos em 2015. Como a população vive mais tempo, a incidência de doenças crônicas e/ou degenerativas tende a aumentar, o que resulta numa expansão da demanda por serviços de saúde — tanto públicos como privados — e, por consequência, tem-se o estímulo à produção industrial dos equipamentos e materiais necessários à prestação desses serviços.

Como citar:

BREITBACH, Áurea. Emprego na produção de equipamentos de saúde aumenta no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/emprego-na-producao-de-equipamentos-de-saude-aumenta-no-rs/>. Acesso em: 24 de novembro de 2017.

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Desemprego na RMPA: uma comparação entre 1998-99 e 2015-16

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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O aspecto que mais preocupa do mercado de trabalho brasileiro na presente conjuntura de crise econômica é o desemprego. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em janeiro de 2017, estima-se que o Brasil tinha 11,76 milhões de pessoas desocupadas em 2016, o que corresponde a uma taxa de desocupação de 11,5%.

Este texto se propõe a tratar do desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), comparando dois períodos: a crise de 2015 e 2016 e o seu momento antecedente de maior gravidade, que se deu nos anos de 1998 e 1999. Essa comparação torna-se possível pelo fato de o trabalho utilizar dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA), que hoje se constitui na mais longa série histórica da Região, pois apresenta médias anuais dos seus indicadores, de forma ininterrupta, desde 1993 até o presente.

Inicialmente, para a melhor compreensão do objeto deste trabalho, caberia esboçar brevemente a trajetória do desemprego na RMPA ao longo de toda a série histórica da Pesquisa. Nesse sentido, no contexto da estabilização monetária do País, em 1994, o desemprego evidenciou um período de descenso até 1995. De 1996 a 1999, no ambiente de baixo crescimento econômico combinado à reestruturação produtiva, o desemprego ingressou em um processo de acentuada elevação, atingindo o seu nível máximo em 1999. O período de 2000 a 2003 combinou uma fase inicial de queda com outra de crescimento do desemprego. De 2004 a 2014 — com uma interrupção pontual em 2009, devido aos efeitos crise econômica internacional —, o desemprego apresentou uma tendência consistente de redução, atingindo o seu nível mínimo neste último ano. Finalmente, em 2015 e 2016, na conjuntura de uma forte contração econômica, o desemprego passou por uma inflexão em sua trajetória, com acentuado crescimento.

Agora, comparando-se o desemprego na RMPA nos anos de 1998-99 com o de 2015-16, constata-se que, em ambos os períodos, a taxa de desemprego total teve uma considerável elevação, não obstante os seus níveis estivessem em patamares muito distintos — ver Gráfico 1. Nesse sentido, a taxa de desemprego total elevou-se para 15,9% em 1998 e para 19,0% em 1999, situando-se, neste último ano, 5,6 pontos percentuais acima de 1997. Já na crise econômica atual, a taxa de desemprego total aumentou para 8,7% em 2015 e para 10,7% em 2016, com um acréscimo de 4,8 pontos percentuais em relação ao ano de 2014. É importante assinalar que a trajetória do desemprego na RMPA em 1998-99 foi uma continuidade do processo de piora que havia iniciado em 1996. Por sua vez, na crise de 2015-16, a trajetória representou uma inflexão no movimento de descenso que vinha verificando-se desde 2004.

Quando se coteja o comportamento da População Economicamente Ativa (PEA) — uma proxy de oferta de força de trabalho — e o da ocupação nos dois períodos que estão sendo analisados, é possível avançar no conhecimento do que está subjacente à elevação do desemprego em cada um deles — ver Gráfico 2. A esse respeito, chama a atenção de imediato a diferença de comportamento do nível ocupacional entre ambos: enquanto, na crise atual, este apresentou contrações de 31 mil pessoas em 2015 e de 83 mil em 2016 — a maior da série histórica da Pesquisa em termos absolutos e relativos (-4,7%) —, em 1998 ele havia tido um acréscimo de 53 mil pessoas e, em 1999, de 24 mil. No que diz respeito à oferta de força de trabalho, foi também muito distinto o comportamento nos dois períodos em análise: na crise atual, ocorreram um acréscimo da PEA de 25 mil pessoas em seu contingente em 2015 e uma contração de 50 mil em 2016. Ao final dos anos 90, a PEA registrou aumentos muito expressivos, de 107 mil pessoas em 1998 — o maior da série histórica da Pesquisa — e de 89 mil em 1999. A combinação desses movimentos fez com que houvesse acréscimos no contingente de desempregados de 119 mil pessoas no período 1998-99 como um todo e de 89 mil em 2015-16.

Fica claro, portanto, que o crescimento do desemprego na RMPA, nos dois períodos enfocados neste texto, foi uma manifestação de movimentos bastante distintos do nível de ocupação e da oferta de força de trabalho. Na crise atual, o aumento do desemprego foi determinado pela contração do nível ocupacional, combinado com a elevação da PEA em 2015, mas atenuado pela saída de pessoas do mercado de trabalho em 2016. Já no período 1998-99, a elevação do desemprego foi provocada por um crescimento da oferta de força de trabalho em larga escala, muito superior à capacidade de geração de oportunidades ocupacionais pela economia regional naquela conjuntura.

Como citar:

BASTOS, Raul Luis Assumpção. Desemprego na RMPA: uma comparação entre 1998-99 e 2015-16 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/desemprego-na-rmpa-uma-comparacao-entre-1998-99-e-2015-16/>. Acesso em: 24 de novembro de 2017.

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A retração do emprego formal prolonga-se em 2016, no RS e em suas regiões

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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O ano de 2015 marcou a reversão da trajetória expansiva do mercado formal de trabalho que, no País e no Estado, perdurou por cerca de 10 anos. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho, o Rio Grande do Sul perdeu, naquele ano, 103,6 mil empregos com registro — uma retração de 3,33%. Para 2016, as informações já disponíveis confirmam o prolongamento desse movimento de refluxo. Enquanto ainda não se dispõe da nova edição da RAIS, conta-se com as indicações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), também produzido pelo Ministério do Trabalho a partir de registros administrativos das admissões e desligamentos de empregados.

O Caged tem diferenças de cobertura e de precisão com relação à RAIS que fazem com que esta última seja priorizada nos estudos de longo prazo. Ademais, como o Caged não apresenta os totais de empregados (os estoques), registrando apenas os vínculos que são criados ou desfeitos, é usual que, para se obter um ponto de referência quanto ao impacto relativo das admissões e desligamentos, se combinem as duas bases, aplicando-se alguns ajustes à RAIS para aproximá-la do universo coberto pelo Caged. Esse procedimento, aqui adotado, é amplamente aceito, desde que explicitadas suas limitações.

Assim, nos 12 meses que se encerraram em novembro de 2016 — último dado disponível —, o Rio Grande do Sul registrou redução de 60 mil vínculos formais de trabalho, uma variação de -2,3%. Quando se examinam os saldos segundo o porte dos empreendimentos empregadores, verifica-se que em apenas um intervalo dimensional houve elevação de contingente, o de estabelecimentos de um a quatro empregados. Nele, geraram-se 38,5 mil postos, uma expansão de 11,2%. Todos os outros intervalos de tamanho experimentaram reduções de pessoal mais acentuadas do que os 2,3% já referidos para o total. Os cortes de mão de obra atingiram com menor intensidade as empresas de grande porte: a variação negativa menos intensa se dá no segmento de estabelecimentos com 1 mil empregados ou mais (-2,5%), seguido do intervalo anterior, que abrange de 500 a 999 trabalhadores (-3,0%).
A indústria de transformação (IT) concentrou boa parte das perdas no mercado formal gaúcho nesses 12 meses. Tendo eliminado 27,9 mil postos, respondeu por 46,4% do saldo negativo, percentual que é mais do que o dobro de sua participação na estrutura do emprego formal gaúcho (22,5%, conforme a RAIS de 2015). O segundo pior desempenho relativo é também do setor secundário: a construção civil fecha 11,2 mil postos, que equivalem a 18,7% da retração do mercado nos 12 meses considerados.

Nas diferentes regiões do território gaúcho, o impacto da conjuntura recessiva sobre o mercado formal de trabalho é diferenciado, distribuindo-se, quando se observam os 28 Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), entre uma perda de 6,2% dos empregos no Corede Norte e um crescimento de 2,8% no Alto Jacuí. Além desse último, apenas outros cinco Coredes, aparecem com variação positiva. Em três deles, ela é muito próxima a zero: Celeiro (0,1%), Alto da Serra do Botucaraí (0,2%) e Fronteira Oeste (0,2%). A seguir, tem-se o Jacuí-Centro (0,8%) e o Médio Alto Uruguai (1,5%). Entre os 22 Coredes que registraram retração, a severidade da crise é bastante variada. Seguindo-se o já referido Norte, os piores resultados relativos aparecem no Noroeste Colonial (-4,6%) e na Serra (-4,4%). Dois Coredes, embora apresentem sinal negativo, encontram-se muito próximos à estagnação (o Vale do Taquari e a Fronteira Noroeste, ambos com -0,1%), e outros 13 têm perdas inferiores aos 2,3% apurados para o conjunto do Rio Grande do Sul, as quais vão de -0,5% no Rio da Várzea a -1,8% no Produção. A eliminação de postos de trabalho, vista a partir dos números absolutos, concentra-se no Corede Metropolitano Delta do Jacuí, que perdeu 23 mil empregos, com retração de 3,0% — mais severa, portanto, do que a do RS —, e no Corede Serra (quase 14 mil vagas, o equivalente a -4,4%, como se mencionou). Na sequência, colocam-se o Vale do Rio dos Sinos, com 5,7 mil postos a menos (-1,7%), e o Sul, com 4,6 mil empregos eliminados e variação de -3,0%.

Uma regionalização mais agregada, a partir das nove Regiões Funcionais (RFs), aponta a RF 3, que abarca três Coredes da região serrana, como a que mais eliminou empregos relativamente (-3,9%). Foram 14,9 mil postos fortemente concentrados na indústria de transformação, que respondeu por 61,6% desse enxugamento nessa região. A RF 5, que se limita ao Corede Sul, tem o segundo pior desempenho (-3,1%). Nesse caso, a IT representa 44,0% das perdas. Em ambas, destaca-se, negativamente, o segmento das empresas com mil empregados ou mais, que, no caso do Sul, apresenta retração de 14,0%. Duas RFs com resultados próximos à estagnação são o que de melhor se apura nessa subdivisão do Estado. São elas: a RF 6 (que agrega os Coredes Campanha e Fronteira Oeste) e a RF 8, agrupamento dos quatro Coredes que se situam no centro geográfico do território gaúcho. Essas RFs apresentam variação de 0,0% e de 0,1%, respectivamente, no contingente de empregados formais.

A rápida e continuada deterioração do mercado de trabalho gaúcho, como se pode observar, mesmo se manifestando com alguma diversidade nas diferentes porções do território, não preserva qualquer foco de dinamismo nesta conjuntura adversa, que ainda não apresenta sinais de superação no curto prazo.

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Como citar:

SOBRINHO, Guilherme Xavier. A retração do emprego formal prolonga-se em 2016, no RS e em suas regiões Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-retracao-do-emprego-formal-prolonga-se-em-2016-no-rs-e-em-suas-regioes/>. Acesso em: 24 de novembro de 2017.

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Perspectivas para a taxa de desemprego em 2017

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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O contexto de recessão em que se encontra a economia brasileira nos últimos dois anos vem-se traduzindo na escalada da taxa de desemprego e na deterioração dos demais indicadores do mercado de trabalho, após uma longa trajetória de redução do desemprego, do aumento real dos salários e da formalização. Com a proximidade do final do ano, o questionamento que se faz é: quais as perspectivas para a taxa de desemprego em 2017?

A taxa de desemprego no Brasil, que era de 6,8% em 2014, aumentou para 8,5% em 2015 e para 11,8% no trimestre de julho a setembro de 2016, atingindo mais de 12 milhões de pessoas, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cenário favorável do mercado de trabalho que se estendeu até 2014 suscitou vários questionamentos sobre o motivo pelo qual a taxa de desemprego não estava sendo afetada pela desaceleração da economia brasileira desde 2011 e ainda mais em 2014, quando os sinais de estagnação econômica já eram visíveis. O fato é que, nesse período, o fraco crescimento nas oportunidades de trabalho foi compensado pelo menor engajamento na força de trabalho. Entretanto, em 2015, com o agravamento da crise e a redução dos salários, observou-se o ingresso de pessoas que até então estavam fora do mercado de trabalho, o que, combinado à retração do nível ocupacional, resultou na escalada na taxa de desemprego. Como o indicativo é que a geração de empregos seguirá lenta durante o próximo ano, a perspectiva da taxa de desemprego em 2017 irá depender do comportamento da População Economicamente Ativa (PEA).

De acordo com os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA), a taxa de desemprego, que era de 5,9% da PEA em 2014 — menor patamar da série com dados desde 1993 —, subiu para 8,7% em 2015 e já atingiu 10,7% no acumulado entre janeiro e setembro de 2016. Assim como ocorreu no mercado de trabalho nacional, a redução na taxa de desemprego entre 2011 e 2014 deveu-se integralmente ao processo de queda na taxa de participação (de 57,1% para 54,4%), ou seja, a retração na PEA foi mais intensa que a diminuição no número de ocupados. A trajetória da taxa de ocupação, que corresponde à proporção de ocupados sobre a População em Idade Ativa (PIA), recuou nesse período (de 52,9% para 51,2%). Em 2015, a taxa de ocupação continuou em declínio (49,9%), tendo encolhido o número de ocupados em 31 mil pessoas, mas a taxa de participação apresentou leve crescimento, ao passar para 54,7%, decorrente do ingresso de 25 mil pessoas no mercado de trabalho, aumentando o contingente de desempregados para 169 mil indivíduos no ano. Os dados de janeiro a setembro de 2016 revelam redução na taxa de participação (53,0%), com a saída de 53 mil pessoas da força de trabalho, e uma queda ainda maior na taxa de ocupação (47,3%), com a eliminação de 86 mil ocupações, o que aumentou o contingente de desempregados para 202 mil pessoas, patamar que não era visto desde 2009.

A análise dos dados sugere que o crescimento da taxa de desemprego seria ainda mais intenso não fosse o recuo da taxa de participação, seja pelo adiamento do ingresso dos jovens nas atividades laborais para se dedicarem somente aos estudos, seja pelo aumento na proporção de idosos na população, em consequência da transição demográfica. A taxa de desemprego em 2016 (no acumulado de janeiro a setembro) teria atingido 13,2%, caso não tivesse ocorrido a redução na PEA. O fato é que a taxa de participação nos meses de agosto e setembro de 2016 já apresentou crescimento leve, indicando que a queda do rendimento médio real dos últimos dois anos, além do agravamento do desemprego, já começa a pressionar o ingresso daqueles que estavam fora do mercado de trabalho.

As perspectivas para o mercado de trabalho em 2017 indicam que o cenário mais provável ainda será o de elevação na taxa de desemprego, já que o emprego reage de forma defasada em relação ao nível de atividade. De um lado, os indicadores de atividade econômica sugerem uma saída lenta da crise, com fraco crescimento econômico, o que deve gerar poucas oportunidades de emprego e a manutenção dos salários em níveis baixos, o que, além de pressionar o desemprego, ainda dificulta uma retomada mais forte da economia. Por outro lado, um maior engajamento no mercado de trabalho à procura de uma ocupação também contribuirá para elevar a taxa de desemprego. Essa pressão será ainda maior se houver um aumento na taxa de participação dos jovens, pois eles apresentam taxa de desemprego mais elevada devido à pouca experiência profissional. Cabe ressaltar que a parcela de jovens fora do mercado de trabalho para se dedicar somente aos estudos já apresenta redução para os dados nacionais, o que ainda não se verifica na RMPA.

Em relação à posição na ocupação, verifica-se que estão sendo eliminadas as ocupações de melhor qualidade. Em 2016, já foram fechados 62 mil empregos com carteira de trabalho assinada na RMPA, e a única ocupação que vem crescendo nos últimos meses, de forma mais intensa, é a dos trabalhadores autônomos (42 mil de junho a setembro). Essa tendência deve-se manter em 2017, visto que essa ocupação se caracteriza pela precariedade, pois, via de regra, possui uma remuneração mais baixa em relação ao emprego formal, além de não ter acesso aos benefícios sociais.

Em síntese, a taxa de desemprego seguirá elevada enquanto o cenário não mostrar uma retomada do crescimento econômico de forma consistente. A perspectiva é que o patamar de desemprego no período pré-crise ainda demore algum tempo para aparecer no horizonte.

Como citar:

BRANCO, Iracema Castelo. Perspectivas para a taxa de desemprego em 2017 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-para-a-taxa-de-desemprego-em-2017/>. Acesso em: 24 de novembro de 2017.

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