Textos na área temática: Comércio internacional

A importância do monitoramento do cenário global para o Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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Em que pesem as opiniões divergentes sobre o papel do Estado como ator executor e difusor de análises sistêmicas sobre as várias dimensões do cenário global, a importância do setor externo na economia gaúcha, por si só, evidencia a relevância de estudos dessa natureza. Os impactos políticos e econômicos da dinâmica do cenário internacional sobre o Brasil e o Rio Grande do Sul são notórios. Diante disso, faz-se necessário o acompanhamento continuado das várias dimensões do processo de globalização em que toda a sociedade está inserido. Dada a expressiva participação das exportações gaúchas no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, assume-se, com certo grau de segurança, que o monitoramento contínuo das conjunturas domésticas e externas dos principais países compradores dos produtos gaúchos seja uma tarefa de extrema relevância para o Governo do Estado. A observação continuada da cena internacional objetiva, também, assessorar o poder público na formulação de políticas que visem ao enfrentamento de desafios transnacionais de nossos tempos, como o terrorismo, os fluxos migratórios globais e o extremismo político.

Essa interdependência dos cenários político e econômico internacionais atua como variável determinante sobre os efeitos multiplicadores decorrentes do desempenho das empresas exportadoras gaúchas distribuídas em vários municípios do Estado. É o caso, por exemplo, do impacto do embargo russo às exportações da União Europeia, Estados Unidos e Canadá, em 2014, em virtude do conflito geopolítico envolvendo Rússia e Ucrânia. Naquele contexto, as exportações gaúchas de carne suína para a Rússia apresentaram uma elevação de 30%, em valor, em 2015.

Assim, no que diz respeito ao Estado do Rio Grande do Sul, o olhar atento à dinâmica internacional deve ser percebida como prioridade, haja vista os graus de vulnerabilidade e sensibilidade entre diversos setores da economia do Estado com o setor externo. Essa atenção deve ser reforçada principalmente no que diz respeito aos principais setores econômicos do Estado e seus principais mercados. Os dados da FEE referentes ao comportamento das exportações no primeiro trimestre de 2017 mostram algo que já é de amplo conhecimento: a soja é o principal produto da pauta exportadora do Estado, e a China, o principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul. Em seguida, na segunda posição, tem-se a Argentina e, na sequência, os Estados Unidos. Esses mercados evidenciam a importância do complexo soja, o automobilístico, o petroquímico e o metalmecânico.

O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços divulga, de forma regular, o valor das exportações por estado da federação e por municípios. O valor por estado considera o valor daquilo que foi efetivamente exportado, produzido, extraído e cultivado em um estado, não importando a localização da sede da empresa. Já o valor das exportações por município leva em consideração, somente, o domicílio fiscal (sede) da empresa. Os dados do quadro abaixo mostram a distribuição por domicílio fiscal e por faixa de valor das empresas exportadoras gaúchas no ano de 2016. Na maior parte das ocorrências, o domicílio fiscal da empresa é o mesmo onde se dá a atividade exportadora. Por outro lado, há exemplos como o de Porto Alegre, em que a atividade exportadora de algumas empresas não se dá no município.

As principais empresas exportadoras com domicílio fiscal no Rio Grande do Sul, em 2016, que exportaram valores acima de US$ 100 milhões, foram: Agco e Petrobrás (Canoas), Tramontina (Carlos Barbosa), Marcopolo (Caxias do Sul), Louis Dreyfus (Cruz Alta), Epcos e GM (Gravataí), Celulose Riograndense (Guaíba), JBS (Montenegro), Amaggi, Bsbios, Cofco Brasil e JBS (Passo Fundo), 4 ADM do Brasil, Cargil, Engelhart CTP e Nidera Sementes (Porto Alegre), Bianchini, BRF S.A., Bunge, Ecovix e Gavilon do Brasil (Rio Grande), Forjas Taurus e Stihl (São Leopoldo), Brasken (Triunfo), China Brasil e CTA Continental (Venâncio Aires), JTI, Souza Cruz e Universal Leaf (Santa Cruz).

Independentemente da faixa de valor em que as empresas exportadoras gaúchas se encontram, o fato é que ao se desagregarem os dados das relações econômicas do Estado com o setor externo, é possível mensurar os efeitos da dinâmica global sobre cada um dos municípios gaúchos em termos de geração de emprego, renda e demanda por serviços públicos nas áreas de educação, saúde pública e assistência social. Assim, levando-se em consideração o valor total das exportações gaúchas de US$ 16,57 bilhões para o ano de 2016, reforça-se a importância e necessidade do monitoramento dos mercados externos das empresas exportadoras no sentido de antecipar o impacto das oscilações externas sobre os efeitos de transbordamento da atividade dessas firmas no dia-a-dia de cada um dos municípios gaúchos em que elas estão estabelecidas. O monitoramento dos cenários globais consolida-se como tarefa imprescindível não só para as empresas, mas também para o Estado do Rio Grande do Sul.

 

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O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS

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Edição: Ano 25 nº 12 – 2016

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A arena política global apresenta elementos que convergem para a construção de um cenário de retração das relações comerciais. Assim, além da saída do Reino Unido da União Europeia, a eleição do republicano Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos consolidou a emergência de forças políticas conservadoras dentro da própria União Europeia que comungam de uma visão mais protecionista em relação a atual conjuntura do comércio internacional.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2008 a 2015 as economias do G20 introduziram 1.441 medidas de restrições ao comércio. Ao longo desse período, 354 dessas medidas foram removidas. O número de medidas restritivas em vigor até outubro de 2015 somava um total de 1.087. Embora as economias centrais tenham registrado crescimento econômico no ano de 2015, a desaceleração das economias emergentes no mesmo período, provocada principalmente pela persistente redução dos preços interacionais das commodities em um cenário mais desafiador para a economia chinesa, compromete o processo de retomada do crescimento dos fluxos comerciais globais.

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Nos Estados Unidos, o presidente eleito já afirmou que deixará a Parceria Transpacífica (TPP). O acordo, assinado em outubro 2015, envolve 12 países (Austrália, Canadá, Estados Unidos, México, Japão, Vietnã, Peru, Chile, Nova Zelândia, Singapura, Brunei e Malásia), 800 milhões de pessoas e aproximadamente 40% do PIB mundial. O abandono do acordo que vinha sendo estruturado para aumentar a influência dos norte-americanos na Ásia, ampliar mercados e conter o avanço da China aponta para a consolidação de uma postura mais isolacionista por parte dos Estados Unidos. Outro acordo que pode ser revisto, é o NAFTA, acordo de livre comércio envolvendo Estados Unidos, Canadá e México. Assim, levando-se em consideração o peso da economia norte-americana no cenário mundial, por menor que venha a ser o seu grau de isolamento no comércio internacional, esses encadeamentos podem ser significativos.
Na Europa, o resultado do referendo em favor da saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) evidenciou o crescente descontentamento das pessoas em torno dos processos de integração política e econômica. As graves crises políticas e financeiras na Grécia, na Espanha e, em menor medida, na Itália, somadas ao desafio imposto pelo terrorismo e pela crise migratória na Europa, constituem um cenário de difícil articulação para governos mais ao centro do espectro político.

Dentro desse contexto, as eleições presidenciais francesas que acontecerão em 2017 ganham uma nova dinâmica com os eventos já mencionados, Brexit e eleição de Donald Trump. Em entrevista para uma das principais publicações no mundo sobre política internacional, Foreign Affairs, Jean-Marie Le Pen, do partido Frente Nacional, afirmou que “[…] a globalização incontrolável é uma forma de totalitarismo, imposta a todo custo em uma guerra de todos contra todos em benefício de poucos”. Assim como Trump, Le Pen, por muitos alinhada com o pensamento de extrema direita, posiciona-se contrariamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), entre Estados Unidos e União Europeia. O TTPI enfrenta forte resistência popular em todo o Bloco. Para Le Pen, no que se refere às lições do Brexit, a candidata avalia que “[…] a França foi muito mais poderosa quando agia de forma independente, sendo França, do que sendo uma província da União Europeia”.

Todos esses eventos somam-se, também, ao complicado cenário político italiano. Após a vitória do “não” no referendo sobre reforma constitucional, ocorrido no último dia 4 de dezembro, proposto pelo Primeiro Ministro Matteo Renzi, este renunciou ao cargo em um contexto de inúmeras incertezas nos campos da política e da economia. Da mesma forma que aconteceu nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália vêm sendo fortemente influenciados pelo sentimento de descrença em relação às soluções propostas pelos processos integracionistas e pela emergência de argumentos em prol de estratégias nacionalistas.

Para o Governo Temer, que vinha sinalizando, pelo menos em seu discurso, o desejo de incrementar as relações comerciais do Brasil por meio de novos acordos comerciais envolvendo, principalmente, Estados Unidos e União Europeia, o cenário internacional mostra-se incerto. Isso se torna mais preocupante, na medida em que, tradicionalmente, esses dois parceiros atuam agressivamente no sentido de promover as exportações e os investimentos de suas empresas e o Brasil encontra-se em uma situação mais vulnerável, tanto do ponto de vista político quanto econômico, o que compromete seu poder de negociação.

Quanto ao Rio Grande do Sul, que apresentou queda do valor acumulado exportado de US$ 1,36 bilhão entre janeiro a outubro de 2016 (dados da FEE), a concretização do cenário protecionista nos Estados Unidos pode comprometer as exportações de manufaturados e semimanufaturados gaúchos no médio e longo prazo. No que tange aos produtos básicos, a desaceleração chinesa afeta negativamente o agronegócio do Estado. Já no que se refere à Argentina, segundo principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul, a crise econômica no país vizinho pode ensejar maiores dificuldades para os exportadores gaúchos.

Como citar:

VALDEZ, Robson Coelho Cardoch. Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recrudescimento-do-protecionismo-global-desafios-para-o-brasil-e-para-o-rs/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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China e Rio Grande do Sul: perspectivas para o comércio exterior

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Edição: Ano 25 nº 10 – 2016

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A realização do encontro do G20 na China traz para o centro das atenções as relações do Brasil com a grande potência emergente da economia global. Compreender melhor o conteúdo e a dinâmica dessas relações é um desafio importante, no sentido de aproveitar ao máximo as potencialidades do comércio exterior e de parceria, em termos de investimento como uma ferramenta para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Em agosto, o informativo da agência oficial chinesa Xinhua News comemorava o aumento das exportações do Brasil para a China, as quais têm acelerado neste ano. Segundo dados do Ministério do Comércio chinês, publicados no informativo, as exportações haviam crescido 17,3% em valor durante os primeiros cinco meses de 2016 em relação a igual período de 2015. A publicação enfatizava, ainda, que esse crescimento se deu mesmo em um contexto difícil para o comércio internacional, de queda de preços das commodities. Em suma, a matéria dava um tom otimista para as perspectivas do comércio entre os dois países.

Esse cenário abre possibilidades para o Estado, que podem ser aproveitadas na direção do aprofundamento e da qualificação das relações bilaterais. A China já é o principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul. Nossas exportações para o país asiático vêm crescendo de forma sustentada e constante desde o início do século, como se pode ver na tabela. De um patamar de cerca de US$ 250 milhões no ano 2000, atingimos mais de US$ 4,8 bilhões em 2015. De janeiro a junho de 2016, 25,9% do total das exportações gaúchas foram para o mercado chinês.

No entanto, uma análise mais cuidadosa da composição de nossa pauta exportadora aponta um padrão que se caracteriza pelo predomínio de produtos primários, notadamente a soja. Em 2016, 83,7% do total de nossas exportações para a China correspondem a esse grão. Ainda assim, pode-se identificar uma presença também de produtos manufaturados e semimanufaturados, mesmo que, em sua maioria, sejam também de baixo valor agregado. A observação da composição de nossas exportações de janeiro a julho de 2016 para a China, por fator agregado, no Sistema de Exportações da FEE, mostra que 88,1% delas correspondem a produtos básicos, 8,5% a produtos semimanufaturados e apenas 3,3% a manufaturados.

A participação do Brasil nos BRICS e as mudanças das conjunturas internacional e chinesa colocam novos elementos que precisam ser considerados de maneira a potencializar os benefícios econômicos dessa relação. Para além do comércio, nossa proximidade com a China sinaliza também possibilidades em termos de atração de investimentos. O atual momento das reformas econômicas da China abre novas perspectivas. Desde o final da primeira década do século, os dirigentes chineses vêm apresentando inovações em sua estratégia de relação com a economia global.

A crise de 2008 e a redução do crescimento do comércio internacional determinaram mudanças importantes, que precisam ser compreendidas e consideradas. Em primeiro lugar, a China vem alterando o seu modelo de inserção internacional. De um sistema centrado na exportação de produtos manufaturados de baixo preço, esse país está transitando para uma inserção mais qualificada, com a produção de bens tecnologicamente sofisticados e, principalmente, com uma política agressiva de investimentos das empresas chinesas no exterior.

Essas mudanças se refletem também no plano doméstico. Diante dos problemas do mercado mundial, a China tem conferido uma ênfase crescente no mercado interno e no seu próprio potencial de consumo como motor para o desenvolvimento. As resoluções da III sessão plenária do XVIII Comitê Central do Partido Comunista Chinês, de novembro de 2013, enfatizam o “incremento do bem-estar” e a busca de um “desenvolvimento econômico mais eficaz, mais justo e sustentável” que permita que “os frutos do desenvolvimento beneficiem mais e com mais equidade todo o povo”. Essa perspectiva abre um campo considerável para uma diversificação da pauta exportadora do Rio Grande do Sul para o país. A nova classe média chinesa, que vem crescendo tanto em termos absolutos como em capacidade de consumo, pode ser um mercado de enorme potencial para as exportações gaúchas.

Essa oportunidade é particularmente importante para nossos produtos agroindustriais. Vinhos, bebidas e sucos de uva e outras frutas, produtos alimentares processados com maior valor agregado, como cortes de carnes premium, doces, balas e caramelos, são produtos que têm alto potencial de aumento de exportações. Da mesma forma, artigos de cutelaria, calçados de alto padrão, itens de joalheria e outros produtos de consumo das famílias têm potencial para conquistar o mercado da nova classe média chinesa. O momento é extremamente favorável para ações estratégicas nessa direção, abrindo espaço para uma dinâmica que favorece a diversificação do comércio e perspectivas positivas para os dois parceiros.

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Fluxos de entrada de investimentos diretos estrangeiros no Mundo

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Edição: Ano 25 nº 09 – 2016

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Conforme o relatório World Investment Report 2016 da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os fluxos mundiais de investimentos diretos estrangeiros (IDEs) ocorridos em 2015 registraram uma elevação de 38% em relação a 2014 e atingiram o valor de US$ 1,76 trilhão. Em 2015, os países desenvolvidos receberam US$ 962 bilhões e voltaram à condição de principais receptores dos influxos globais (55%), posição que não ocupavam desde 2012. Na América do Norte, o principal responsável pela expansão são os Estados Unidos, que atingiram o primeiro lugar no ranking de países com os maiores fluxos de entrada de IDE. Os países europeus desenvolvidos também tiveram um crescimento significativo nos investimentos, pois receberam US$ 504 bilhões (um aumento de 65%), melhorando sua posição no ranking, o que acabou retratando a participação global desse grupo de países. O bom desempenho, no entanto, reflete um surto de fusões e aquisições entre países limítrofes, em grande escala liderado por empresas multinacionais e como parte de um movimento de reconfigurações corporativas, tanto por mudanças nas estruturas legais e de propriedade como pela tributação.

Em 2015, o ingresso de IDEs nos países em desenvolvimento, embora seja 9% superior ao fluxo recebido no ano anterior, apresenta diferenças no desempenho. A captação dos países em desenvolvimento da Ásia superou meio trilhão de dólares, porém ainda é concentrada na região do Leste e do Sudeste Asiático, que recebeu 83% do ingresso de investimentos do continente, dos quais 25 pontos percentuais correspondem à China. América Latina e Caribe tiveram queda de 2% nos fluxos de entrada. Esses fluxos representam apenas 9,5% dos investimentos mundiais, abaixo, portanto, do patamar anterior, de 13,3%, em 2014. Do mesmo modo, tanto a África quanto as economias em transição tiveram perdas de participação. Considerando-se mais especificamente os países dos BRICS, todos eles sofreram um rebaixamento de posição no ranking dos principais destinos de IDE em âmbito mundial. A China passou do 1.º para o 3.º lugar; o Brasil retrocedeu da 4.ª para a 8.ª posição; a Rússia, que já tinha sido rebaixada para a 16.ª posição em 2014, saiu do ranking dos 20 maiores receptores em 2015. A Índia manteve a 10.ª colocação em 2015, a mesma do ano anterior; e a África do Sul, fora do ranking, sofreu uma queda de 70% no ingresso de investimentos.

Os fluxos de IDEs para a América do Sul caíram 6% em 2015 e ficaram em US$ 121 bilhões, refletindo uma demanda doméstica contracionista e termos de troca mais desfavoráveis em decorrência da queda dos preços das commodities. Desse modo, o declínio dos preços das principais commodities de exportação levou à queda dos investimentos no setor extrativo da região e ocasionou a redução no reinvestimento de lucros.

Dentre os países da América Latina e do Caribe, o Brasil foi o principal receptor de investimentos em 2015, recebendo 38,5% do total dos fluxos. Todavia, os IDEs para o País apresentaram queda de 12% em relação ao ano anterior. Essa contração pode ser atribuída à recessão e ao declínio dos lucros corporativos, que, por sua vez, levaram a uma redução de 14% nos lucros reinvestidos. No mesmo ano, a formação bruta de capital fixo brasileira teve um declínio de 14% em termos reais.

Os setores que mais atraíram investimentos para o Brasil em 2015 foram: comércio (US$ 5,5 bilhões), extração de petróleo e gás natural (US$ 4,6 bilhões), telecomunicações (US$ 4,6 bilhões), indústria automobilística (US$ 4,5 bilhões) e energia (US$ 3,9 bilhões). Alguns fatores contribuíram para evitar uma queda maior no ingresso de IDEs. Não obstante uma redução na produção de carros, o ingresso de investimentos na indústria automotiva aumentou de forma acentuada, acompanhando o planejamento de projetos anteriormente anunciados. Outro fator a beneficiar os investidores foi a valorização do dólar em relação ao real, o que permitiu a compra de ativos a preços atrativos. Esse foi o caso da British American Tobacco, do Reino Unido, que comprou as ações que ainda não possuía da sua afiliada Souza Cruz S.A. por US$ 2,45 bilhões. Já nas indústrias relacionadas à infraestrutura, houve um declínio acentuado nos investimentos.

A UNCTAD prevê que, em 2016, os IDEs para América Latina e Caribe poderão sofrer novo declínio, passando de US$ 168 bilhões para uma faixa de US$ 140 a160 bilhões. Isso porque a previsão para a região é a continuidade da recessão e a permanência de condições macroeconômicas instáveis. A demanda enfraquecida, aliada ao potencial de depreciação adicional da moeda, pesará nas decisões de investimento na indústria de transformação e nos serviços. Se os preços das principais commodities de exportação da região continuarem a declinar, poderá ocorrer um atraso nos projetos de investimento na indústria extrativa, bem como um novo desestímulo ao reinvestimento de lucros. No caso do Brasil, a revalorização do real pode ter um efeito contrário ao encarecer os ativos e conter o ingresso de novos investimentos. No entanto, considerando-se que, nos países desenvolvidos, uma parcela significativa dos investimentos pode ser atribuída a fusões e aquisições lideradas pelas multinacionais, é possível que o mesmo fenômeno seja também observado na região, o que pode alterar o resultado do ingresso de IDEs no Brasil. No ano de 2015, foram registradas 742 transações de fusões e aquisições no País, concentradas principalmente na Região Sudeste (73%), enquanto a Região Sul participou com 12% do total. Os investidores estrangeiros estiveram presentes em 360 das transações, sendo Estados Unidos, Reino Unido e Japão os principais países de origem, com 35%, 7% e 5% do total respectivamente.

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A nova política dos EUA para a América Latina

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Edição: Ano 25 nº 05 – 2016

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Em 21 e 22 de março de 2016, o Presidente Barack Obama realizou uma visita a Cuba, a primeira de um chefe de Estado norte-americano após quase 90 anos, e, nos dois dias seguintes, à Argentina. De acordo com o discurso oficial da Casa Branca, a viagem a Cuba visou à “normalização das relações”, ao “avanço dos laços comerciais e entre os povos”, e ao “apoio aos direitos humanos”. No caso argentino, o intuito foi de “[…] aumentar a cooperação em diversas áreas, incluindo comércio e investimentos, energia renovável e mudança climática e segurança cidadã”.

Além dos aspectos simbólicos, amplamente difundidos na imprensa e nos discursos oficiais, cabe compreender o significado político dessas atividades do Governo norte-americano na América Latina e explorar possíveis desdobramentos para o Brasil. Entende-se que essas visitas evidenciam uma releitura da forma pela qual o Governo norte-americano busca inserir-se no Hemisfério Ocidental, sobretudo durante o segundo mandato presidencial de Obama (2013-16), que tem registrado algumas diferenças significativas em relação aos períodos anteriores, inclusive a seu primeiro mandato (2009-12).

Até o final do primeiro mandato de Obama, tinha-se a imagem de que os EUA se encontravam em um lento e paulatino processo de perda de influência na América Latina, ao mesmo tempo em que outros atores globais pareciam avançar, sobretudo a China, que se havia tornado a principal parceira comercial para muitos países (Brasil, Chile, Peru, entre outros), ou ainda, uma relevante fonte de investimentos (sobretudo para a Argentina). Em 2011, após a primeira viagem de Obama pela América Latina, passando pelo Rio de Janeiro e por Brasília, a maior parte dos analistas concordava que a iniciativa não lograra resultados significativos para as relações regionais. No ano seguinte, durante o VI Encontro das Américas em Cartagena (Colômbia), muitos líderes latino-americanos não escondiam sua insatisfação com a continuidade do embargo econômico a Cuba e com a promoção da guerra às drogas. Ademais, a Venezuela encontrava-se em seu apogeu na oposição a Washington, graças, em boa medida, aos altos níveis do preço do petróleo no mercado internacional, sua principal fonte de divisas externas.

Desde o princípio do segundo mandato de Obama, os EUA passaram a atuar com maior ênfase em recursos de soft power, inclusive reconhecendo erros e excessos cometidos no passado, mas sem modificar a grande estratégia de buscar aumentar sua influência na região. Em um discurso ainda no primeiro ano como Secretário de Estado, John Kerry, por ocasião da abertura da Organização dos Estados Americanos, bradou que “a era da Doutrina Monroe acabou”, isto é, que os Estados Unidos cessariam de “intervir nos assuntos internos dos países americanos”, os quais passariam, sob a nova orientação, a “[…] verem-se como iguais, que compartilham responsabilidades, cooperam em temas de segurança e aderem não a doutrinas, mas a decisões que são tomadas entre parceiros”. Essa mudança tática, contudo, não significou uma reviravolta nas posições políticas de Washington: incisiva oposição aos governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro na Venezuela, interesse em avançar na negociação e na assinatura de acordos de livre comércio, como a Parceria Transpacífico, inclusive apoiando explicitamente a Aliança do Pacífico, além do combate ao terrorismo e ao crime organizado na região. Mesmo a retomada do diálogo direto com Cuba em 2014, seguida pelo restabelecimento das relações diplomáticas no ano seguinte, não aliviou as críticas ao regime cubano em relação a diversos temas, como direitos humanos e liberdades individuais.

A mudança na forma de atuação dos EUA melhorou sensivelmente a imagem e a posição da superpotência em meio a diversos públicos latino-americanos. Em publicações divulgadas pelo Pew Research Center, uma instituição de pesquisa norte-americana, em 2015, a proporção de entrevistados que tinham uma imagem positiva dos EUA foi de 73% no Brasil e de 66% no México, que são os dois países mais populosos da região. Cabe ressaltar que, entre os países latino-americanos pesquisados, as maiores aprovações foram encontradas no Brasil. Em 2012, os índices referentes a esses dois países eram, respectivamente, 61% e 56%.

O esvaecimento do antiamericanismo na América Latina ocorre simultaneamente à mudança na orientação política de diversos países na região, ainda que seja arriscado estabelecer uma associação de causa e efeito nessa questão. Porém, o enfraquecimento de dirigentes críticos aos EUA, como Nicolás Maduro (Venezuela), Dilma Rousseff (Brasil) e até mesmo Michele Bachelet (Chile), e a ascensão de presidentes de viés mais liberal, como Mauricio Macri (Argentina) e Keiko Fujimori (Peru), poderão contribuir para a posição dos EUA na região.

No caso do Brasil, a revelação à imprensa do sistema norte-americano de espionagem em 2013 levou as relações bilaterais ao pior nível em décadas, motivando o cancelamento da visita pela mandatária brasileira naquele ano. As relações entre os dois países ficaram praticamente sem importantes novidades, até que, em junho de 2015, Rousseff embarcou para Washington. A ocasião foi interpretada como um reatamento informal do diálogo, ainda que as exigências brasileiras de desculpas pelos incidentes de espionagem não fossem atendidas pelo Governo Obama. Ademais, as incertezas na política interna brasileira contribuíram para a lentidão no entendimento. Um eventual governo de Michel Temer possibilitaria não apenas a continuidade do diálogo, mas o aprofundamento das relações comerciais e políticas entre os dois países.

Assim, o curto, mas significativo, giro latino-americano de Obama, além de lograr o restabelecimento dos laços econômicos e políticos com a Argentina e com Cuba, coroa a tática centrada na promoção do soft power norte-americano na região. Nesse sentido, o segundo mandato de Obama tem sido mais eficaz do que as administrações anteriores, excessivamente calcadas na agenda de segurança e no combate ao terrorismo. A retomada do diálogo com alguns países e o reconhecimento dos excessos passados não demonstram o enfraquecimento dos EUA na América Latina, como se queixa a crítica doméstica a Obama. Essa nova tática tem contribuído para o aumento do poder de barganha dos EUA e para a melhoria das relações bilaterais com diversos países da região.

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Perspectivas para as exportações do Brasil e do RS em 2016

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Edição: Ano 25 nº 03 – 2016

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A despeito da deterioração dos principais indicadores macroeconômicos brasileiros em 2015 e da piora das expectativas para 2016, a balança comercial do País apresentou o maior superávit desde 2011 (US$ 19,7 bilhões). Ainda que essa melhora resida mais no intenso recuo das importações do que propriamente pelo desempenho das exportações, estas últimas se manifestam como um alento para a economia nacional em 2016. Mesmo com o ano de 2015 tendo sido marcado pelo agravamento da recessão, as exportações nacionais e gaúchas cresceram em volume (talvez como uma própria consequência do desaquecimento da demanda interna e, por sua vez, da acumulação de estoques ao longo de 2015), resultando no maior volume embarcado da história do comércio exterior brasileiro e gaúcho e na maior rentabilidade nacional em reais dos últimos 11 anos.

Nesse sentido, um primeiro fator que pode contribuir para a ampliação desse resultado em 2016 é o movimento de depreciação do real frente ao dólar (que se iniciou em 2011 e ganhou intensidade em 2015), o qual exibe uma tendência de continuidade e se apresenta como o principal fator de expectativas favoráveis para as exportações. Enquanto, em alguns setores (como os de metalurgia, celulose, calçados e têxteis), já se percebem alguns indícios de substituição de parte dos importados por produção nacional, a expectativa é de que os efeitos do câmbio mais competitivo (a R$/US$ 4,20 em 2016, chegando a R$/US$ 4,36 no fim do ano, contra uma média de R$/US$ 3,33 em 2015) comecem a serem sentidos com mais intensidade no decorrer de 2016. Isso por conta de sua defasagem sobre as exportações, a partir da negociação de novos contratos com o câmbio no patamar atual e da reativação de canais de exportação antes fechados no período de sobrevalorização do real e de quando a indústria se voltou mais fortemente ao mercado interno. Em especial, o setor exportador espera uma reação mais vigorosa das exportações de manufaturados ao realinhamento cambial.

Um segundo fator consiste na estabilidade dos preços internacionais das commodities, com tendência à valorização das agrícolas, embora ainda persistam incertezas em relação ao comportamento das minerais e metálicas. O arrefecimento dos preços de commodities tradicionais, como soja, petróleo e minério de ferro, iniciado em meados de 2014 e que perdurou ao longo de todo o ano de 2015, foi o grande responsável pela redução em valor das exportações brasileiras e gaúchas no ano passado. Apesar da queda vertiginosa em preços, o volume embarcado dessas mercadorias ao exterior cresceu, indicando que, com preços mais estáveis, estas podem contribuir positivamente com as exportações em 2016.

Nesse particular, outro fator decisivo decorre dos desdobramentos da mudança de modelo de crescimento da economia chinesa (da manufatura/investimento para serviços/consumo). Pelo perfil de consumo das commodities importadas pela China, a quantidade de soja não deve ser muito afetada, diferentemente da de petróleo e de minério. Aqui, o RS sairia mais beneficiado do que o País, dado que o gigante asiático é o principal importador de produtos brasileiros (soja, minério, petróleo, celulose e açúcar) e gaúchos (basicamente, soja) e que a sua demanda por alimentos não deve ser prejudicada pela transformação em marcha.

O desempenho de outros parceiros comerciais estratégicos também será decisivo para as nossas exportações. As recentes medidas de afrouxamento nas restrições ao comércio internacional anunciadas pelo Governo Macri na Argentina — como as reduções e extinções de impostos de exportação e a revogação do imposto de importação — podem contribuir para o crescimento das exportações gaúchas e brasileiras, sobretudo de manufaturados, mesmo que não tão a curto prazo. Nos EUA, outro importante mercado para os nossos produtos industrializados, vislumbra-se a manutenção do satisfatório ritmo de crescimento verificado nos últimos anos, o que deve acarretar o aumento de suas importações.

Para além dos três principais parceiros comerciais do Brasil e do RS, houve o reposicionamento da política comercial brasileira (fortalecimento de relações comerciais com parceiros já tradicionais e abertura de novos mercados) com o lançamento do Plano Nacional de Exportações (PNE) em junho de 2015. De acordo com o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), 1.100 companhias voltaram ou começaram a exportar no ano passado, com estimativa de mais de 2.000 empresas entrarem na lista de exportadores nesse ano. Também segundo o Ministério, espera-se a ampliação da base exportadora do RS em 20%, a partir da difusão do Plano Nacional da Cultura Exportadora. Na esteira do PNE, diversos acordos comerciais foram celebrados ou renegociados em 2015, bem como foram adotadas várias medidas de facilitação ao comércio, através de mecanismos e regimes tributários e de financiamento e garantia às exportações.

Na área da agropecuária, medidas consagradas em 2015 também podem ser elencadas: recuperação de diversos mercados embargados, inclusive de 100% dos embargados em 2012 de carne bovina; acesso aos maiores importadores de lácteos, como China, Rússia e Japão; abertura, reabertura ou ampliação de mercados para produtos brasileiros e gaúchos relevantes, como carnes, lácteos e alimentos para animais; acordos sanitários e fitossanitários; combate a práticas ilegais no comércio internacional; e ampliação da atuação dos adidos agrícolas. Tais medidas oferecem ainda mais fôlego à previsão de crescimento em 2016 da produção de soja, carnes e celulose no RS, além de café e açúcar no Brasil.

Em suma, os fatores aqui discutidos, em maior ou menor grau, oferecem perspectivas favoráveis para as exportações do Brasil e do RS em 2016, mesmo em um cenário permeado de incertezas macroeconômicas, menor crescimento do comércio mundial e acirramento da concorrência externa. No entanto, ressalta-se que a baixa participação das exportações no PIB limita a capacidade de reação das economias brasileira e gaúcha por meio desse vetor apenas.

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Política externa pragmática e inserção brasileira no continente africano

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Edição: Ano 24 nº 09 – 2015

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Na última década, as relações do Brasil com a África têm sido marcadas pelo pragmatismo da política externa brasileira. Pautando-se pelo princípio do Direito Internacional da não intervenção nos assuntos internos dos Estados, o Brasil vem fomentando as trocas comerciais com países africanos, proporcionando oportunidades para empresas nacionais. Apesar das críticas de que alguns desses países tenham um histórico comprometedor de violação dos direitos humanos, o fato é que houve, nos últimos anos, incremento do comércio bilateral entre o Brasil e muitos países da África.

Na esfera comercial, os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram que o valor das exportações para a África saltou de US$ 1,3 bilhão em 2000 para US$ 9,7 bilhões em 2014, atingindo um pico de US$ 12,2 bilhões em 2012. Nesse período, a média das exportações brasileiras para esse continente foi composta, em sua maior parte, por produtos manufaturados (57,4%) e semimanufaturados (17,6%).

Segundo o Itamaraty, o estreitamento das relações do Brasil com a África, sobretudo com Angola, Moçambique e com os países do Golfo da Guiné, favorece os investimentos da Petrobras e de empreiteiras brasileiras e a promoção do agronegócio brasileiro na região. Adicionalmente, abrem-se, também, mercados para produtos fabricados no Brasil.

Hoje a Petrobras atua em Angola, Benim, Gabão, Tanzânia, Namíbia e Nigéria. Recentemente, o Governo Federal concedeu o perdão e a renegociação de dívida de alguns países localizados no Golfo da Guiné, promissora região produtora de petróleo, e na África subsaariana, área de interesse estratégico para o agronegócio nacional.

A aproximação entre o Brasil e a África tem sido impulsionada, também, pela atuação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em Moçambique, Togo, Benin, Burkina Faso, Chade, Mali e Angola. Nesse caso, a inserção do Brasil dá-se pela cooperação técnica na área de produção de alimentos e de transferência de tecnologia brasileira adaptada às características desses países.

Nesse contexto, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) lançou, em 2010, o Programa Mais Alimentos Internacional (PMAI). O Programa prevê concessão de financiamento, para que seus países participantes (Zimbábue, Cuba, Moçambique, Gana e Quênia) possam comprar máquinas e implementos agrícolas fabricados no Brasil. Os dados do Sistema de Exportações da Fundação de Economia e Estatística (FEE) mostram que, no ano passado, esses países responderam por 5,12% das exportações nacionais de máquinas e implementos para agricultura e pecuária, totalizando o valor de, aproximadamente, US$ 48,6 milhões. A participação das empresas gaúchas nos mercados citados foi de apenas 7,73% (US$ 3,76 milhões). Contudo, as vendas locais a esses mercados merecem destaque. De acordo com o MDA, 65% das empresas que participaram do PMAI em 2014, que também conta com uma versão nacional, estão estabelecidas no Rio Grande do Sul.

Percebe-se que a política externa brasileira para a África, aos moldes da norte-americana, da europeia, da russa e da chinesa, vem promovendo, de forma pragmática, grandes oportunidades de negócios às empresas nacionais.

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A queda do preço do petróleo: uma trama saudita?

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Edição: Ano 24 nº 04 - 2015

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Nos últimos meses, a brusca retração do preço do petróleo no mercado mundial tem chamado a atenção da comunidade internacional, que aguarda receosa os seus desdobramentos. De fato, a partir de junho de 2014, o preço dessa commodity despencou dos US$ 115 por barril e rompeu o patamar de US$ 50, estabilizando-se um pouco acima desse nível em março de 2015. Ao analisar as causas desse processo, vemos que há o encontro de uma baixa demanda (motivada pela estagnação na Europa e no Japão e pelo arrefecimento da expansão chinesa) com um recrudescimento da oferta, em virtude da produção crescente na Rússia, no Iraque e na Líbia e do avanço da extração não convencional, como o petróleo de folhelho (shale oil) nos Estados Unidos, as areias betuminosas no Canadá e o Pré-Sal no Brasil.

Ao contrário do que se poderia esperar, a posição da Arábia Saudita — principal produtor, exportador e dono das maiores reservas — não foi de preocupação. Em documentos e declarações oficiais, os sauditas asseveraram sua tranquilidade em relação à queda do valor do petróleo, salientando que o movimento especulativo dos mercados de capitais faz com que essa commodity flutue repetidamente. No entanto, como 90% das divisas externas que chegam a Riad são obtidas através da exportação de petróleo, levantou-se uma série de dúvidas sobre a sinceridade dessas afirmações, que poderiam estar ocultando outras motivações, de natureza não econômica, mas geopolítica.

Com efeito, há muitos anos, a postura dos sauditas no tocante ao preço do petróleo é diferente quando comparada com a de outros Estados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), tais como Irã e Venezuela. Enquanto iranianos e venezuelanos, dentre outros, tencionam manter elevado o valor do produto, para auferir maiores receitas e levar a cabo seu projeto político, os sauditas parecem mais interessados na sustentabilidade da sua produção petrolífera: temem que os custos elevados incentivem a ampliação das fontes alternativas de energia e de extração mineral. Ademais, os outros países da OPEP gostariam que os sauditas desempenhassem o papel de swing state, ou seja, o de País que diminui ou aumenta sua produção petrolífera para alterar o preço desse item, o que atualmente não é bem aceito na Arábia Saudita.

Em boa medida, o contraste entre Riad e Teerã nesse ponto deve-se a diferenças políticas e demográficas, na medida em que o Irã é muito mais populoso (tem 77 milhões de habitantes, contra 28 milhões na Arábia Saudita) e tem um sistema político menos oligárquico, o que aumenta as pressões e as demandas sobre ele. Além disso, o País enfrenta um conjunto de sanções internacionais que têm atravancado seu crescimento econômico. Desse modo, como se trata de dois Estados rivais no sistema internacional, especula-se que os sauditas estejam forçando a baixa do preço do petróleo para minar o Governo iraniano.

Nesse contexto, muitos asseveram que a ofensiva saudita não se limitaria a prejudicar o Irã, mas também os Estados Unidos. Isso porque a produção norte-americana vem prosperando desde 2012, com a extração do folhelho, revertendo uma queda que vinha desde a década de 70. Entretanto, o montante para a realização dessa atividade é significativo, e o break even (preço mínimo do barril a partir do qual a produção se torna economicamente viável) situar-se-ia entre US$ 50 e US$ 70. Assim, Riad eliminaria um potencial competidor, assegurando uma maior margem de manobra com Washington e no mercado petrolífero. De quebra, daria uma resposta firme à reaproximação entre Estados Unidos e Irã, que vai de encontro aos seus interesses. Ressalta-se, ainda, que a morte do Rei Abdullah — sucedido por seu irmão Salman — não surtiu mudanças na postura do País, que segue com a ideia de manter baixo preço do petróleo.

No entanto, as reais pretensões sauditas parecem bem mais modestas, sem o intuito de dificultar a exploração de petróleo não convencional, por duvidarem da possibilidade de sucesso dessa empreitada. Na realidade, a recusa em reduzir a produção estaria calcada em duas razões: em primeiro lugar, em outras conjunturas, a Arábia Saudita tomou uma atitude nesse sentido, mas não logrou elevar os preços como desejava e ainda viu seu market share reduzido, beneficiando somente os outros membros da OPEP. Ademais, justamente por saber que o preço do petróleo está abaixo do break even para muitos produtores, o Governo saudita crê ser inevitável uma diminuição do ritmo de investimentos nos Estados Unidos e em outros lugares, o que, de fato, já vem ocorrendo. Nessas circunstâncias, não valeria a pena cortar a produção quando empresas estrangeiras já se veriam obrigadas a fazê-lo.

A despeito da manobra saudita, não se pode afirmar que o valor do petróleo vai manter sua trajetória decrescente ou se haverá uma reversão desse fenômeno em breve. Historicamente, verifica-se uma grande oscilação no preço do produto, tanto por alterações na oferta e na demanda quanto por mudanças nas expectativas dos agentes econômicos, que também variam abruptamente conforme as circunstâncias. Ainda assim, é imperativo observar os desdobramentos futuros das negociações entre o Irã e o P5 + 1 (EUA, China, Rússia, França, Alemanha e Reino Unido). Como as tratativas avançaram, espera-se um levantamento gradual das sanções ao Irã, o que poderá implicar um aumento significativo nos investimentos em seus campos petrolíferos. Isso, por sua vez, voltaria a pressionar a oferta dessa commodity, retomando a perspectiva de uma nova baixa no preço do petróleo.

drope7

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As relações Brasil e Estados Unidos no segundo mandato de Dilma Rousseff

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Edição: Ano 24 nº 02 - 2015

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O Brasil adotou uma política externa pragmática nos últimos 12 anos. Essa característica assemelha-se à política externa dos países desenvolvidos, no sentido de ampliar suas relações diplomáticas, visando ao fomento dos interesses domésticos e externos do País, independentemente da posição político-ideológica de seus parceiros. Tal abordagem aproxima-se daquela dos Presidentes Generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, em que as relações com o Oriente não significavam, necessariamente, um distanciamento das relações consolidadas com o Ocidente, em especial com Estados Unidos e Europa. No Governo Dilma, porém, as relações do Brasil com os EUA tornaram-se mais complexas, devido às questões pertinentes à economia mundial e à diplomacia entre os países.
Em 2013, no campo diplomático, as atividades de espionagem da National Security Agency (NSA) no Brasil levaram a Presidente Dilma a criticar fortemente as ações dos Estados Unidos e fizeram com que sua viagem à Washington, naquele mesmo ano, fosse cancelada.
Na seara econômica, a Presidente teve de lidar com cenário econômico muito mais adverso do que de seu antecessor. Durante os dois mandatos do Governo Lula, a alta liquidez da economia mundial favoreceu a inserção comercial e política do Brasil em âmbito internacional. Já no primeiro mandato de Rousseff, a desaceleração global da economia tornou-se um complicador para as ambições diplomáticas do Brasil, na medida em que temas políticos e econômicos de ordem doméstica passaram a dominar a agenda da Presidente.
Em que pesem as dificuldades do primeiro mandato, a presença do Vice-Presidente norte-americano, Joe Biden, na cerimônia de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff sinalizou uma desejável reaproximação. Vale ressaltar que a última vez em que um vice-presidente daquele país esteve presente em uma cerimônia de posse, no Brasil, foi em 1990. Dessa forma, os interesses convergentes nas relações Brasil-EUA podem ser resumidos no incremento do investimento e do comércio bilateral e na articulação política entre os dois países, no sentido de resguardarem seus respectivos interesses no continente americano.
Nesse sentido, os recentes sinais de aproximação entre Estados Unidos e Cuba, a liderança brasileira da missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti e a situação política e econômica da Venezuela têm potencial para se tornarem ponto de partida desse novo contexto das relações entre os dois países.
A situação na Venezuela é uma preocupação para ambas as nações, por se tratar de um grande importador; por ser um grande exportador de petróleo; e pelo potencial grau de desestabilização política que representa. A questão venezuelana influi nas atividades do narcotráfico, nos países amazônicos, em especial na Colômbia — país estratégico para a política norte-americana de combate ao tráfico internacional de droga. Desse modo, percebe-se a aproximação entre Brasília e Caracas como algo que possa interessar ao governo de Washington.
No que diz respeito ao Haiti, apesar das controvérsias envolvendo o tema, a presença brasileira no país centro-americano pode ser interpretada como exercício do softpower brasileiro. Ainda que oscilem, os índices de aprovação da presença verde-amarela naquele país são positivos, tanto do ponto de vista da população local como dos demais países da região. Além de projetar o Brasil internacionalmente, a missão da ONU “desobriga” os norte-americanos de uma tarefa que, provavelmente, lhes seria atribuída. Nesse sentido, a permanência, ou mesmo o fim da missão no Haiti, previsto para 2016, é um tema que demandará uma articulação da diplomacia brasileira junto ao governo dos EUA.
Já a aproximação diplomática e comercial entre Brasil e Estados Unidos amplia o leque de possibilidades de negócios brasileiros na América Central. O volume de investimentos que vem sendo empreendido na consolidação da região como um importante hub logístico do comércio internacional, em função das ampliações das capacidades do Canal do Panamá, da construção de um novo canal na Nicarágua e da construção do Porto de Mariel, em Cuba (financiado com recursos do BNDES), aumenta o espaço para novas empresas brasileiras operarem na região. Adicionalmente, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos podem capitalizar, em benefício próprio, as sólidas relações entre Brasília e Havana no recente processo de retomada das relações diplomáticas e comerciais entre Cuba e EUA.
Além das questões conjunturais que favorecem o fomento das relações entre o Brasil e EUA, busca-se a recuperação dos fluxos de comércio e investimento entre o Brasil e os principais países do hemisfério americano. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, em 2009 a China tomou a posição dos EUA como principal destino das exportações brasileiras. A partir de 2011, percebe-se a relativa manutenção do valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos e queda para seus principais parceiros, especialmente a Argentina e a Venezuela.
Ainda que o atual cenário de recuperação da economia norte-americana seja modesto, as relações entre Brasil e Estados Unidos podem ser instrumentalizadas, no sentido de ampliar, no médio-longo prazo, as oportunidades para o incremento das exportações brasileiras na região. Ademais, aos olhos dos investidores internacionais, a aproximação entre Brasília e Washington poderia ser interpretada como sinal do comprometimento político da Administração Dilma Rousseff com o programa de ajustes econômicos pelo qual passa a economia brasileira.
Embora os ganhos econômicos sejam limitados, o fortalecimento político da relação Brasil-EUA pavimenta, em alguma medida, o caminho para consolidar o protagonismo brasileiro nos âmbitos regional e global. Percebe-se, então, a necessidade de a diplomacia da Presidente Dilma Rousseff aproveitar o atual contexto para estreitar as relações com os Estados Unidos. Isso em nada compromete os ganhos alcançados por meio das parcerias estratégicas já estabelecidas pela diplomacia brasileira no marco de suas relações sul-sul, nos últimos anos.

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